quinta-feira, 9 de junho de 2011

"O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO"



Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam, alegres, a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... Casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... Tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também.
Pra quê televisão? Pra quê rua? Pra quê droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... Era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa... A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... Até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas.. Pra quê abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos, do leite...
Que saudade do compadre e da comadre!

José Antônio Oliveira de Resende
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

6 comentários:

  1. Verdade isso né Drica, mas enfim temos que viver esses novos tempos, tentando quebrar um pouco esse medo. Bjs Eliane

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  2. Olá Drika! Texto lindo e verdadeiro... As pessoas estão evoluindo para um mundo sem amor, sem respeito, sem carinho... É uma pena!!!

    Vim agradecer sua visita e responder ao seu recado no meu blog:

    Obrigada pelo elogio! Os meus cabelos eram MUITO mais cacheados do que hj, principalmente dos 0 aos 15 anos... Se eu não estiver usando Deva, NADA de cachos! Já testou??? Tem dado muito certo pra mim e pra outras meninas... Experimenta!

    Bjokas no coração!

    Dan

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  3. Oi lindinha que blog legal !!!Vou te seguir. Obrigada pela mensagem lá no meu bloguinho.
    Bjkas.

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  4. adorei sua mensagem lindaaa...........brigadinho pela força viu, to precisando..bjossss pra vc lindona...Ro

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  5. oi Drika
    verdade amiga lindo e verdadeiro, não visitamos mais ninguém mau saimos de casa...eu adoro comer bolo,tomar cházinho e jogar conversa fora, mas infelizmente não tem muitas pessoas dispostas a receber, as vezes até por pura falta de tempo....tempos modernos...
    Drika obrigada amiga por elogiar e votar na minha cama!
    Beijo flor excelente semana pra vc!!!!!

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  6. Lindoooo...as casas pequenas, o corre-corre, o orçamento que não aguenta improvisos e principalmente a falta de habilidade de ser a dona da casa acabaram com um costume tão gostoso ...

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